Problema do paciente
Minha avó morreu há quase 21 anos.
Eu era uma idiota de apenas 17.
Ela foi mal atendida no hospital para onde a levamos.
Em um momento, arrancou o acesso — estava com dor, não conseguia ficar com os braços parados.
Lembro da funcionária chamando sua atenção por se mexer demais.
E da ampola de morfina.
Era uma cidade do interior. Mas isso não justifica um atendimento ruim.
Comecei a trabalhar no SUS Betim aos 19 anos, faltando poucos dias para completar 20.
Tímida, sem experiência alguma — era meu primeiro emprego.
Mal conseguia falar alto o bastante para ser ouvida.
Hoje tenho 18 anos de experiência e nunca deixei um usuário do SUS sem atendimento ou sem orientação que pudesse ajudá-lo a receber o que tem direito.
Quem trabalha no setor público trabalha com o que tem — e, geralmente, temos muito pouco. Às vezes até gastamos do próprio bolso para suprir o que falta.
Mas boa vontade ninguém fornece, ninguém compra.
Você tem ou não tem.
Pode até desenvolver, mas tem que ter vontade — e empatia.
Já orientei sobre Farmácia Popular, Farmácia de Minas e até sobre a farmácia voluntária criada pela Júnia, na Pastoral da Igreja São Francisco de Assis.
Isso demora, exige paciência e boa vontade.
Já enviei muita medicação doada por usuários do postinho para a farmácia da pastoral.
Atendimentos demorados, sim — mas nunca feitos de qualquer jeito.
Todas as orientações: como tomar o medicamento, para que serve, sugestões de horário, desenhos nas embalagens para quem não sabia ler, explicações demoradas, testes em glicosímetros.
Escrevi e digitei nomes de remédios e posologias porque a letra do médico era ilegível ou pequena demais.
Não é para me gabar.
É o que todo mundo deveria saber fazer.
Trabalhar com pessoas é complicado, mas, considerando o tempo de serviço que tenho, as desavenças foram poucas.
É comum discutir com alguém num dia e, dois dias depois, atender a mesma pessoa novamente — sem ressentimento.
A raiva passa.
A dor da demora e da falta de remédio também.
Não dá pra contar muitas histórias — nem é o objetivo aqui. Isso é apenas um desabafo.
E, pra ser sincera, eu nem lembro de muitas. Pelo menos, não das ruins.
Foi (e é) um exercício de paciência.
Mas pouco antes — e principalmente depois — de ser obrigada a sair do postinho e ir para o Hospital Regional, levei um choque de realidade.
Regras são regras.
Exceto quando a chefia decide que não são.
Gritos não são gritos.
Exceto quando vêm de baixo para cima.
Fofocas não são versões.
São verdades absolutas.
Só existe um lado da história.
Descobri que puxa-saco existe mesmo — até então, era só lenda pra mim.
Descobri que colegas de trabalho podem não ser colegas.
E que “trabalho em equipe” às vezes é só um conceito bonito no papel.
E descobri que não importa o quão calmo e claro você tenta se comunicar — se o outro não quer ouvir, não adianta.
Distorcem.
Falam mais alto que você.
Agridem — e, se você reage, é “agressiva”.
“Descontrolada”.
“Precisa se medicar”.
“Insuportável”.
Ontem foi um desses dias.
Tentei fazer algo simples: verificar se havia um medicamento para uma paciente recém-internada.
Mas foi custoso. As barreiras pareciam tão altas quanto a torre de Babel — e as respostas, tão atravessadas quanto.
Mal comecei a falar:
“O médico prescreveu duas medicações para a paciente Fulana de Tal: atorvastatina e ciprofibrato…”
Fui cortada antes de terminar.
Vieram as explicações óbvias, em tom professoral:
— “Tem que comprar, porque não é padronizado no hospital.”
Como se eu fosse uma iniciante, como se não soubesse disso.
Respirei. Tentei explicar novamente:
“Eu sei. Mas eu doei ciprofibrato há um tempo e queria apenas saber se ainda tem no armário da farmácia.”
Nova interrupção.
Mais protocolos, mais explicações que eu não pedi.
Tentei insistir, com calma:
“Quero apenas saber se o medicamento que doei ainda está disponível.”
Mas as interrupções continuaram — e então vieram as frases que deixaram claro o tipo de diálogo que eu estava enfrentando:
— “Não precisa jogar na cara que você doou o medicamento.”
— “Se for ficar falando que doou o remédio pode levar de volta.”
— “A partir do momento que você doou, o medicamento é do hospital.”
— “O paciente tem que comprar o medicamento.”
— “Esse é um problema do paciente.”
Foi nesse momento que percebi que o problema não era a falta de remédio.
Era a falta de escuta, de empatia e de humanidade.
E é triste ver que, em um lugar que deveria cuidar, ainda é preciso lutar apenas para ser ouvida.
Mas eu também sou paciente.
Também sou usuária do SUS.
Já estive do outro lado.
Fui atendida e medicada no início do plantão noturno.
Fiquei na maca do corredor. Sozinha. Ainda com o crachá no pescoço.
Só procurei ajuda para a dor depois de trabalhar um plantão de 12 horas.
De madrugada, a dor voltou — forte.
Chamei uma funcionária, que disse não ter medicação prescrita.
Chamei novamente.
Não havia médico.
Chorei de dor.
Sou resistente à dor. Aguento mais do que deveria.
Se chorei, é porque era insuportável.
Tem três anos, mas lembro exatamente como me senti.
Tomei os comprimidos que tinha na mochila — nem olhei direito. Ibuprofeno, dipirona, escopolamina, simeticona… o que tivesse.
Tudo pra parar a dor.
Arranquei o acesso e saí.
Meu crachá caiu no chão e voltei para buscar.
Mas, aparentemente…
É problema do paciente.
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